GASTRONOMIA TÍPICA

- Xanfana
- Folar da Páscoa ou Bolo Doce
- Filhós de Abóbora Menina (Natal)
- Coscorões
- Bolo Rei
- Sonhos
- Broa de milho
- Mel
- Pão de trigo

Xanfana

 

A XANFANA:

    Casamentos, baptizados, festas religiosas, não dispensam a confecção desta iguaria, que assenta no suculento cozinhado de carne de cabra ou bode, ou carneiro. A típica caçoila de barro preto é a utilizada para a mistura de condimentos como o sal, a pimenta, o colorau, o toucinho, o azeite, o louro, a salsa, o alho, a cebola, a banha, a noz moscada, que temperarão a carne cortada em nacos. O vinho tinto da Bairrada entra em cena para cobrir o preparado. Encaminhar-se-á a caçoila para o forno de cozer o pão, previamente aquecido como se da broa se tratasse, e aí se demorará largas horas até o forno arrefecer naturalmente. Será nessa caçoila que, um ou dois dias depois, se saboreará requintadamente este prato, acompanhado por um dos vinhos da Região.

 

   Você sabia que a XANFANA é originária de Mortágua?

  HISTORIAL DA XANFANA

   Pelo Carnaval, há cerca de 60 anos, na Marmeleira, povoação do Concelho de Mortágua, uma senhora chamada Angelina, teve a ideia de improvisar para a refeição um "prato" surpresa, confeccionado com carne de ovelha, e do seguinte modo:

   Para uma caçoila de "barro preto", de Molelos, cortou a carne aos pedaços e cada camada de carne juntou um pouco de colorau, pimenta, cebola picada, alho esmagado, sal e folhas de louro. Depois da carne acondicionada deste modo na caçoila, juntou-lhe ainda um ramo de salsa e uma golada de azeite e conservou-a assim, a tomar contacto com estes temperos, durante o tempo que ia decorrer para aquecer o forno de lenha onde ia cozer o pão de trigo, que nesse tempo ali se chamava "pão de festa".

   Quando o forno já estava à temperatura ideal, meteu lá os pães (agora chamados "Pão caseiro"), cobriu a carne na caçoila com bom vinho tinto e introduziu-o também no forno, para assar. E de vez em quando "regava" essa carne com vinho para que não ficasse a descoberto de molho, enquanto assava.

   A carne assim preparada ficou uma maravilha. E chegado o dia da sementeira das batatas, a mesma Senhora, mandou "abater" outro lanígero do seu rebanho e preparou-o para a merenda, do mesmo modo como tinha preparado no dia de Carnaval.

   A dita merenda, na qual também tomaram parte alguns convidados amigos, constou de:

   - Carne, assim assada
   - Pão caseiro, de trigo, "pão de festa"
   - Batata cozida com a casca, conhecida por "batata fardada", que se depelava no momento que se ia comer e temperava com o  molho da própria carne
   - Grelos, na época (na falta deste, serviu-se com alface)
   - e vinho

e foi muito apreciada, todos gostaram da carne assim preparada, uma especialidade que merecia nome.

   As sementeiras, as colheitas e digamos quase todos os trabalhos agrícolas são uma faina sã. E como nessa época ainda havia entre nós, beirões de Mortágua e especialmente nos trabalhadores de campo, um pouco de sotaque "Xim", isto é pronúncia de S por X, como por exemplo XIM XENHOR, XOU DE VISEU, etc. E esta especialidade gastronómica merecia realmente um nome, entenderam que o nome devia ficar relacionado com a faina agrícola em muita alegria e camaradagem, e ficou baptizada de XANFANA, que traduz FAINA SÃ.

   Faina Sã   ->   Sã Faina  ->   XANFANA

   Antigamente a agricultura entre nós foi conhecida por "a arte de empobrecer alegremente". Na realidade assim era e algumas das fainas agrícolas mais violentas como sementeiras, plantações e arranque de batatas, ceifas e malhas (as desbulhas dos cereais eram feitas malhando as espigas com a força humana e o peso do mangual) realizavam-se com o auxílio de pessoas amigas que se ajudavam uma às outras, em franca camaradagem que terminava sempre em "comes e bebes" um aparato de apetitosas merendas no campo, no fim dessas fainas e em agradecimento pelo trabalho realizado.

   E foi noas anos trinta, no início dessa década, que se preparou pela primeira vez a XANFANA, que sendo fácil de cozinhar, alimento apetitoso e forte, passou a servir-se nesses "comes e bebes" no campo.

   Até aí  já se cozinhavam carnes assadas de várias maneiras mas não deste modo. E com o tempo foi-se verificando que a XANFANA é melhor se for preparada com carne de ovino velho do que com carne de caprino  e animais novos.

   Mas sendo a XANFANA um "prato" de tão simples preparação e ao alcance de todos nessa época, porque no nosso concelho quase toda a gente tinha rebanhos, era muito apreciada e não tardou que fosse conhecida e também servida nos jantares de festas, ficando a constituir digamos mesmo o "prato favorito" dos dias de festa das aldeias da nossa Região da Irmânia*.

   Apresentava-se nas mesas fartas nos dias das grandes festas: Festa Geral da Marmeleira (festa de todos), que se realizava, e ainda hoje, no terceiro domingo do mês de Julho e nas festas da Escola-Livre da Irmânia ou Centro Democrático de Educação Popular, que se realizavam nessa data nos dias de Reis, aniversários da sua fundação, que duravam sempre uma semana e às quais afluía gente de muitos lados, sendo também uma festa para todos, quer fossem ou não sócios da nossa Escola_Livre.

   Às festas da Escola_Livre (Centro Democrático de Educação Popular da Marmeleira) vinham também pessoas intelectuais, como professores universitários, advogados, médicos, engenheiros, arquitectos, etc., de Lisboa, Porto, Coimbra e outras terras, como proferirem conferências no salão da Escola_Livre da Irmânia. Durante o convívio com estas pessoas e falado-se de XANFANA, como era preparada e comida, foi-lhe dada ainda outro nome: LAMPATANA, em que:

LANA ->   PANE
LAM ->   PAM ->   et ANA
->   PÃO

(Abreviatura do nome Angelina, que teve a ideia desta especialidade)

(ovelha, carne) (com que se come)


   Estas festas eram abrilhantadas por orquestras da Bairrada - "JAZZ OS PERUS DO TROVISCAL" e "TUNA DE AGUIM".

   Ora sendo a XANFANA ( e não Chanfana) apreciada e uma novidade gastronómica nessa época, para todos mas especialmente para os visitantes, não tardou que passasse a ser logo conhecida e preparada na redondeza e por toda a parte. E o quererem atribuir esta especialidade à Região da Bairrada, o que não é verdade, deve-se ao facto da vinda às nossas festas, nessa época, dos referidos grupos musicais dessa região, que levaram a "receita" para as suas casas, suas aldeias e por lá a divulgaram.

   Portanto a XANFANA é uma especialidade de Mortágua, podendo ainda mais esclarecer-se que os rebanhos existiam na nossa região e não na das Bairrada e que a caçoila preta, onde é cozinhada, se fabrica na vizinha povoação de Molelos -Louça de Molelos- que nesse tempo se vendia em abundância na nossa região e ainda hoje, na feira quinzenal de Vale de Açores, em Mortágua.

 

Por:  Dr. José de Sousa Batista

 

 

*Irmânia (Terra de Irmãos): A Região da Irmânia situa-se na quase sua totalidade na Beira Alta, sendo limitada a nascente pela Linha-Férrea da Beira Alta, a Norte pela Estrada Nacional 234, a Sul pelo Rio Mondego e a Poente pela Serra do Bussaco.