“Esta Escola [de Cães Guia] antes de ser uma instituição é uma paixão”

 

18-12-2009

 

João Pedro Fonseca, é presidente da direcção da Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual que integra a Escola de Cães Guia de Mortágua criada em 1995. Começou a sua actividade em 1999 e continua a ser a única em Portugal, com uma lista de espera de quatro anos, porque apenas tem capacidade para entregar 14 cães (só lavradores) por ano. O Jornal do Centro dedica a sua campanha deste ano “Um Natal de Boas Notícias” a esta instituição sediada em Mortágua, mas com trabalho em todo o país. Como surge a Escola de Cães Guia de Mortágua? Esta Escola antes de ser uma instituição é uma paixão. Foi um projecto comunitário candidatado pela Escola Beira Aguieira a um programa comunitário. Esse programa permitiu candidatar dois educadores a formação de formandos, para fazerem a sua formação em França, dado que, na altura, tal como agora, não havia essa formação no país. Além disso, na componente física permitiu edificar a estrutura quer hoje alberga os cães, toda a parte administrativa e onde os cegos (futuros utilizadores) permanecem na sua fase de formação. A partir de Janeiro de 2000 foi a consequência lógica do que vinha de trás, os parceiros constituíram a Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual que é hoje uma IPSS. Criaram a associação por terem sentido alguma necessidade específica? Tínhamos na década de 90 a percepção muito clara [da falta da escola], porque tínhamos pessoas no grupo de trabalho (de Coimbra) que lidavam com a cegueira e com a mobilidade e acessibilidades há mais de 30 anos e eu, por formação, sou veterinário estava na escola profissional. Coincidiu um conjunto de factores, quando havia falta dessa estrutura física em Portugal, onde só existia a mobilidade à bengala. Essa percepção do problema ajudou a desenvolver o projecto? Essa sensibilidade existia conjuntamente com o facto de existir uma estrutura que permitiu fazer uma candidatura e servir de suporte à continuidade da candidatura, para consecução concreta de uma estrutura física que existe hoje, porque ideias para construir uma escola de cães guia existem há mais de 30 anos em Portugal, só que sempre sem um suporte de retaguarda que lhe permitisse ter alguma coisa que avançasse. É um processo complexo? Só para as pessoas perceberem: para se formar um educador são precisos três anos e nós tivemos que ter uma estrutura que durante três anos construísse edifícios, tivesse pessoas a estudar no estrangeiro para serem futuros educadores e ter alguém da retaguarda a alimentar o menino para que, ao fim desse tempo, começássemos a produzir cães guia. Quem foi essa retaguarda? A Escola Profissional Beira Aguieira e a seguir a Câmara Municipal [de Mortágua]. Houve um conjunto de factores que permitiu que, ao mesmo tempo que se educavam os futuros profissionais, construíam-se edifícios… Montar uma escola de cães guias não é como montar uma fábrica em que se arranja um conjunto de pessoas, alguns investidores e, passado dois meses está a trabalhar. Quando acabou o tempo de duração da candidatura, onde foram buscar financiamento para o projecto? Aí houve uma entidade que teve um papel fundamental que foi a Câmara Municipal de Mortágua. Atribuiu-nos um subsídio que serviu para nós nos aguentarmos nos primeiros meses. Durante esse tempo decorreu o processo de negociação com a Segurança Social, que demorou quase um ano até que os técnicos percebessem que iam subsidiar cães. Era extraordinariamente esquisito em 1999. E quem iam subsidiar? A dupla cego/cão guia. O acordo assenta numa base de produção de duplas. Foi a tradicional burocracia portuguesa a emperrar? Foram meses de espera e de desespero. Não podíamos continuar a pedinchar a toda a gente. A sociedade não nos conhecia, não havia a consolidação da ideia. Se fizéssemos uma campanha de angariação de fundos não nos reconheciam e era muito difícil. O Estado tem cumprido o seu papel no projecto? Até hoje nunca deixou de cumprir. A renegociação dos acordos nunca são fáceis, mas não posso deixar de reconhecer que o Estado tem tido um papel muito importante e nós próprios não queremos ser subsídio-dependentes e dependentes a 100 por cento do Estado. Hoje as campanhas funcionam melhor? Nós tínhamos a noção que só podíamos avançar com campanhas na rua e abordar directamente as pessoas, quando tivéssemos a noção que reconheciam em nós alguma coisa, que já tinham ouvido falar. Não querendo ser subsídio-dependentes, de onde vêm as receitas, uma vez que o cão é gratuito para o utilizador? É do subsídio da Segurança Social, que representa cerca de 60 por cento, dos sócios, dos donativos, dos eventos ao longo do ano… Obviamente que há aqui uma participação dos utilizadores que é muito importante na angariação de fundos. Primeiro, quando vamos para qualquer campanha é importante a presença de um deles, por outro lado, sempre que lançamos uma campanha de merchandising, aí os cegos ajudam-nos, a família, os amigos, o emprego… são os nossos agentes. Têm conseguido assim sobreviver? Temos as nossas contas todas em dia. O plano de actividades e orçamento para o ano que vem é de 280 mil euros. Porque é que só formam 14 duplas por ano? Três anos de investimento no exterior é muito investimento, mais educadores, mais estruturas físicas, mais cães… mais tudo, exige uma estrutura a crescer. Mas temos que crescer senão corremos o risco endémico. Os cães depois de nove/dez anos deixam de trabalhar e nós já começámos a fazer substituições. Estatutariamente, os utilizadores quando deixam de ter o seu cão têm prioridade na substituição, porque é dramático para eles pegar na bengala de novo. Já 11 receberam o seu segundo cão. Como estamos a substituir, podíamos chegar ao momento em que trabalhávamos em circuito fechado só para fazer substituições e os cegos que estão à espera deixariam de ter expectativas. O que pretendem fazer? Romper este círculo, aumentar a nossa capacidade e criar uma estrutura que permita arranjar mais cães guia para os cegos portugueses. Para já, encontrámos duas soluções: estamos a criar uma estrutura mais ágil que, sem aumentar os educadores, permite potenciar o seu trabalho, estamos a fazer formação de pré-educadores, aquele profissional que trabalha o cão até ao momento de dar indicações específicas para o cego, e o educador pega nos cães já muito mais trabalhados. Outra forma de suprir um pouco as nossas limitações, foi fazer um acordo com uma escola de Nova Iorque, para onde no primeiro trimestre de 2010 irão dois cegos portugueses que estavam na lista de espera. Fomos aos Estados Unidos ver os cães, pedimos para introduzir uma série de conceitos que não estavam a introduzir na educação dos cães deles. Por exemplo? Carros nos passeios, em Nova Iorque é coisa que não existe. Postes no meio dos passeios. Essencialmente problemas de mobiliário urbano, as chamadas acessibilidades arquitectónicas. Quando é entregue o cão ao utilizador? Com cerca de dois anos de idade. Embora tecnicamente possa estar preparado, não tem maturidade, por isso é que isto custa tanto dinheiro. Quanto custa formar um cão? Estamos a falar de 18 mil euros. O cão é treinado aonde? Em zona urbana. Os cachorros nascem na escola, no nosso centro de reprodução, são seleccionados. Primeiro são treinados na escola de Mortágua, depois começam a ir para o ambiente de trabalho. Vão ter as suas famílias de acolhimento, o educador acompanha os cães nas cidades. Porque é que nem todo o cego pode ter um cão? Por uma deficiência física, por uma deficiência auditiva, pode não gostar de cães, pode não se habituar e a mais importante de todas, ter ou não mobilidade. O cão não vai dar mobilidade ao cego. Portanto, os cegos que se inscrevem têm que ser avaliados. Há vinte e tal já seleccionados, depois há mais uma quantidade de pessoas que está à espera da avaliação. E quando os cães ultrapassam a capacidade de acompanhar o cego? São reformados. Se por incapacidade, damos sempre a hipótese ao cego de ficar com o cão em sua casa, caso o novo cão se compatibilize com o que lá está. O cão é sempre propriedade da escola. Qual é o critério de escolha para atribuir um cão? Não é necessariamente pelo tempo de espera. O cão que está pronto, pode não ser o cão que se adequa aquela pessoa. Como é feita a selecção das famílias de acolhimento? As famílias candidatam-se, telefonam [para a escola]. Depois, há uma visita à casa. O fundamental é que haja gente em casa, porque o cão para estar sozinho fica no canil da escola. Nós damos tudo. Ser apartamento ou uma casa com quintal é indiferente e não vamos ver se a casa é rica ou pobre, mas ver o esquema de vida das pessoas e a disponibilidade mental das pessoas para terem um cão. O grande objectivo das famílias de acolhimento é que o cão se habitue a viver com os humanos, saber o que é o barulho de um aspirador, o cheiro de um bacalhau assado na cozinha, saber que não pode ir a todo o lado… um conjunto de regras de convivência. O cão guia tem que ser um ser sociável dentro de casa. Um cão guia tem permissão para entrar em todo o lado? Sim. Foi uma batalha que fomos ganhando com o tempo. Essa batalha tem que ser ganha na cabeça das pessoas, não é com a legislação debaixo do braço. A legislação portuguesa é muito boa, foi feita em 2000 e rectificada em 2007. Agora está a surgir uma pequena guerra nos hospitais (incluindo no de Viseu). Quando se interdita a determinadas zonas, estou inteiramente de acordo, mas impedir a entrada no cão quase na portaria, não posso concordar, portanto, vamos discutir as zonas. Não podemos é pensar da mesma maneira toda a vida. Quais são os reais perigos patológicos? Teríamos uma conversa muito interessante. Com mais facilidade sai uma pessoa com uma doença de outra pessoa que está na sala ao lado.

 

Fonte: www.jornaldocentro.pt

 

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